Ainda elaborando a intensidade de uma visita ao Museu de Imagens do Inconsciente – um dos meus eixos de estudo – deixo aqui algumas impressões. Localizado no bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, o museu foi assim descrito pelo psicanalista Hélio Pellegrino:
“No Museu da Imagens do Inconsciente existe matéria para anos e anos de pesquisa. É uma das fontes que o homem contemporâneo pode – e deve – consultar, para reencontrar-se com a sabedoria regeneradora que se acha inscrita no coração de cada um de nós.” –Hélio Pellegrino
No local, a casinha-ateliê de Fernando Diniz ainda resiste. Um espaço sobrevivendo ao tempo e abrigando a memória de uma figura mágica que chegou a mim anos atrás, através de “Imagens do Inconsciente”, documentário de 1988 dirigido por Leon Hirszman, sobre pacientes que conheceram a grandeza de Nise da Silveira e se revelaram artistas. A força daquela casinha lateral de janelas azuis segue ritmando meus dias e reafirmando o pacto que elegi para a vida: a relação arte-psicanálise e um “mais, ainda” que rege minha existência.
Uma visita ao Engenho de Dentro é uma viagem que se efetiva como um encantamento que segue se estendendo ao mundo. E é bonito ver os esforços e o movimento para não só manter o local, mas transformá-lo em um parque, que refunde e reconstrua o sentido de espaço. Na articulação com o pensamento psicanalítico que tem origem na ideia freudiana de delírio, encontramos aquilo que pode se contrapor à patologização, e revele algo da estrutura do sujeito. Nesse sentido, a própria linguagem seria delirante, na medida em que é regida por um campo movediço entre sujeito e objeto, entre a habitação do corpo e da língua e a pura estrangeiridade. Trata-se de resgatar a memória de um trabalho vivo e pulsante e recolocar uma série de questões importantes a serem vistas e revistas sob a lógica da inclusão da alteridade.
Um bom modo de explorar o assunto é assistir “Imagens do Inconsciente”, filme que explora a produção de três pacientes do Engenho de Dentro – Fernando Diniz, Adelina Gomes e Carlos Pertuis – como parte de uma invenção que está em tudo.
Bianca Coutinho Dias é ensaísta, psicanalista, pesquisadora, crítica de arte e curadora. Especialista em História da arte pela FAAP, mestre em estudos contemporâneos das artes pela Universidade Federal Fluminense, doutoranda em memória social na UNI- RIO. Escreve sobre artes plásticas, cinema, literatura, psicanálise e sobre tudo mais que pode movimentar e reinventar o mundo. Na coluna “ Mais, ainda” muito desse universo heteróclito entrará em cena compondo um exercício experimental da escrita que se abre para a partilha de experiências sensíveis, pesquisas em andamento, visitas à espaços de arte, andanças diversas e outros delírios.